MAX WEBER

“Toda reflexão conceitual sobre os elementos últimos da ação humana prevista com sentido, prende-se, antes de tudo, às categorias de ‘fim’ e ‘meios’. Queremos algo em concreto ou ’em virtude de seu próprio valor’, ou como meio que está a serviço daquilo a que se aspira em última instância? À consideração científica pode ser submetida, incondicionalmente, a questão de se determinados meios são apropriados para alcançar os objetivos pretendidos. Já que podemos – dentro dos limites do nosso saber, diferindo de caso para caso – estabelecer quais meios seriam apropriados ou não aos determinados fins propostos, podemos também, seguindo este mesmo procedimento, ponderar acerca da possibilidade de alcançar um determinado fim, considerando os respectivos meios disponíveis, e, a partir dela própria, criticar indiretamente a proposta dos fins, tendo em conta a situação historicamente dada, como sendo prevista de sentido, ou, diferentemente, classificá-la como sendo sem sentido. Podemos, além disso, se a possibilidade de alcançar um fim proposto parece como dada, comprovar e constatar as conseqüências que teria a aplicação do meio requerido, e, também, do eventual lucro do fim pretendido, levando em consideração a interdependência de todo o devir. Deste modo, oferecemos aos atores a possibilidade de refletir sobre as consequências ‘não-intentadas’, comparando-as com as ‘intentadas’, para responder à pergunta seguinte: qual é o ‘custo’ do alcance do fim desejado em termos da perda previsível da realização de outros valores, ou em comparação a ela? Supondo que, na grande maioria dos casos, qualquer fim a que se aspire, neste sentido, ‘custa’ alguma coisa ou ‘pode custar algo’, a auto-reflexão dos homens que agem com responsabilidade não pode prescindir da ponderação entre fins e consequências de determinada ação. Possibilitar isto é, exatamente, uma das funções mais importantes da crítica técnica que até agora foi objeto de nossas reflexões. Mas tomar uma determinada decisão em função daquelas ponderações já não é mais tarefa possível para a ciência. Ela é própria do homem da ação: ele pondera e escolhe, entre os valores em questão, aqueles que estão de acordo com sua própria consciência e sua cosmovisão pessoal. A ciência pode proporcionar-lhe a consciência de que toda a ação, e também, de modo natural, conforme com as circunstâncias, a ‘não-ação’ implicam, no que tange às suas consequências, uma tomada de posição a favor de determinados valores, e, deste modo, em regra geral, ‘contra outros valores’ – fato que, hoje em dia, é facilmente esquecido. Decidir-se por uma opção é exclusivamente ‘assunto pessoal’.” (Weber, 2001 [1904], p.109-10).
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WEBER, Max. 1992 [1904]. A “objetividade” do conhecimento na Ciência Social e na Ciência Política. In: Metodologia das Ciências Sociais. Parte 1. (Trad. Augustin Wernet) Campinas: Cortez, pp.107-54.