1 – Introdução

[Sumário]

Este livro reúne um conjunto de textos e proposições que desenvolvi nos últimos 10 anos, sobre aquilo que comecei, em 2018, a chamar de “vida eletrônica”, i.e.: a vida que vivemos na forma de padrões eletromagnéticos, uma forma de vida que vem se desenvolvendo, desde meados do século passado, em sinergia com circuitos eletrônicos. Parte da motivação para esse estudo é crítica, e radica num desejo de contribuir para desarmar a armadilha capitalista que nos captura diariamente, e a cada vez nos coloca à sua disposição. Parte é estética e metodológica, e radica num desejo, e num esforço, de ver o mundo da perspectiva das agências não humanas que o compõem conosco.

Este é um livro de Sociologia, na medida em que faz proposições sobre a vida humana em sociedade, em diálogo com a tradição sociológica e com o campo da sociologia. É um livro de sociologia da tecnologia, na medida em que se apóia na investigação de processos tecnicamente mediados de associação. E é um livro de sociologia da tecnologia sobre a vida eletrônica, na medida em que se apóia na investigação de processos eletronicamente mediados de associação.

Processos de associação

Cada ciência se distingue das outras por um conjunto de práticas de investigação, que caracterizam, entre outras coisas, seu objeto. Mas sobretudo, cada ciência é, sempre, uma instituição social, um fato social durkheimiano, modos de agir, pensar e sentir que se impõem ao praticante como condição para sua ação como cientista. Dessa perspectiva, toda ciência é social, pois participa do desempenho do coletivo, principalmente quando, como a física, a química ou a biologia, produz conhecimento sobre entidades consideradas não-humanas. E se toda ciência é social por isso, então as Ciências Sociais seriam duplamente científicas: as únicas capazes de investigar, cientificamente, a própria prática científica.

Existem, porém, muitas maneiras diferentes de investigar a vida humana em sociedade. Existem, em outras palavras, correntes e escolas sociológicas, com relação às quais cada pesquisador deve se situar, caso queira contribuir para um debate propriamente sociológico. O estudo aqui desenvolvido está claramente situado em um terreno comum identificado entre: a sociologia clássica de Émile Durkheim; a filosofia da individuação de Gilbert Simondon; e a Teoria Ator-Rede de Bruno Latour. O problema comum a todas essas abordagens, e a partir do qual se voltam para a vida humana em sociedade, é o da convivência: como vivermos juntos? Durkheim, Simondon e Latour serão evocados ao longo do livro, via de regra para recolocar esse problema, que é também o que anima nosso estudo original sobre a vida eletrônica. O pressuposto básico dessa abordagem é a ideia de que “a sociedade é a natureza humana”, e que processos de associação são sociogenéticos, instituindo realidades vividas coletivamente.

Processos tecnicamente mediados de associação

O tipo de sociologia aqui proposto entende, assim, o estudo da vida humana em sociedade como o estudo de processos de associação, i.e., o estudo de sociogêneses, ou de processos de institucionalização. Dentre os processos de associação aqui investigados, se destacam aqueles envolvendo agências consideradas não humanas e não vivas, como o funcionamento de componentes eletrônicos e sua materialidade. Latour chamou de “mediações técnicas” o papel dessas agências consideradas não humanas em uma cadeia operatória, motivo pelo qual defino o objeto da sociologia da tecnologia como sendo os processos tecnicamente mediados de associação. Dentre as mediações técnicas, interessam sobretudo neste livro aquelas que poderíamos chamar de elétricas ou eletrônicas.

Vida eletrônica

Vida eletrônica é aqui compreendida como a vida que vivemos na forma de padrões eletromagnéticos. Trata-se, portanto, de uma espécie de vida não humana vivida pelo humano na forma de campos eletromagnéticos padronizados em circuitos e no espectro eletromagnético. Apesar das teses de telepatia, os padrões eletromagnéticos fisicamente ligados às ações de uma pessoa são geralmente extremamente fracos e localizados, inexistentes portanto na escala interacional humana. Pequenos potenciais elétricos no cérebro, ou em outras partes do corpo ou a radiação emitida por nossos eletrônicos, correspondem a importantes exemplos desses padrões eletromagnéticos, que também incluem irradiações de maior potência por antenas de Wi-Fi, telefonia móvel, satélites, rádio, TV etc. Vivemos em um mar de padrões eletromagnéticos, sendo que muitos deles são extensões ou correspondências de nossas próprias ações. Isso é viver na forma de padrões eletromagnéticos.

A forma exata desses padrões não é importante neste momento, mas sim o fato de ser considerado uma forma de agência não humana, física. Em outras palavras, importa considerar a não humanidade imputada aos padrões eletromagnéticos em cuja forma vivemos nossa vida eletrônica, e as consequências dessa imputação. Não existe aqui, portanto, nenhuma hipótese singularista sobre download da consciência na forma de um software, apenas uma hipótese sobre as implicações e consequências de se viver na forma de padrões eletromagnéticos.

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a única, dentre as ciências, voltada para a investigação de práticas humanas, dentre as quais a própria ciência. Apenas as ciências sociais, portanto, podem investigar cientificamente a própria prática científica

O objeto da sociologia, a vida humana em sociedade, difere de qualquer outro objeto científico, por ser, a própria sociologia, produto de seu objeto..

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Ecos de uma revolução: Comte, Marx e Franklin e Maxwell

    Enquanto sociólogos lidavam com o problema da revolução (necessária mas ineficaz), físicos unificavam a teoria eletromagnética.

Prelúdio para uma Guerra Mundial: Tarde, Weber e Durkheim

    Como vivermos juntos?

Entre-Guerras: Mauss, Leroi-Gourhan, Goffman, Bruner

    Como vivemos juntos?

Lidando com a modernidade: Gell, Simondon, Lévi-Strauss, Garfinkel, Deleuze, Guattari, Becker

    Como mudamos nossa forma de vida?

Lidando com o presente: Latour, Rawls, Viveiros de Castro, Garcia dos Santos, Haraway, Stengers, Kopenawa

    Proposições